Enochatos

Para quem gosta de vinho e gastronomia






Quem é Robert Parker no Mundo do Vinho

Não é muito o feitio deste Blog publicar textos muito técnicos ou excessivamente longos, mas neste caso, devido a importância do tema, decidi publicar este artigo de Mike Taylor, o Fundador do Forum de Eno-Gastronomia, que fala sobre um dos icones da Enologia, o Sr. Robert Parker.

Você pode não ligar para notas de Degustação, você pode achar um absurdo que especialistas digam o que você deve o não beber, mas História é História, e vale a pena você ler este artigo e conhecer um pouco sobre alguém que em algum momento você vai ouvir falar em uma roda de amigos tomando um bom Vinho.

Por tanto invista um pouco do seu tempo e leia este interessante artigo, ou imprima e ponha na cabeceira da cama, e leia com calma, vae a pena.

Robert Parker. O imperador do Vinho
Elin Mc Coy
Editora Campus

“Parker esta simplesmente fazendo o seu trabalho como escritor de vinhos. Todo o comercio do vinho ajudou a criar o problema. Quando eles os ajudou com a safra de 2000, ninguém se queixou. Como ele agora diz que os preços estão altos demais, não comprem!, então ele virou um sujeito detestável. E a comedia humana !.”
Michel Bettane, fundador da La Revue du Vin de France

O filosofo Ernst Nagel* diria que “a segurança da ciência depende de que haja homens mais preocupados pela correção de seus métodos que pelos resultados obtidos mediante seu uso, sejam quais forem esses”.

E acho que nesse sentido Eline Mc Coy, seguindo as bases da filosofia analítica e com um brilhantismo epistemológico, e feliz no seu livro Robert Parker. O imperador do vinho.

Seria ideal começar um livro pela pagina final ?  Neste caso sim… e assim ate faríamos uma sadia exegesis da proposta concreta da autora, que conheceu Robert Parker em 1981, quando fora a primeira redatora-chefe de sua revista e acompanhou desde então sua extraordinária ascensão.

“Os defeitos profundamente humanos de Parker foram ampliados sem razão por seu colossal sucesso. Muitos outros críticos de vinho, tivessem eles recebido uma fração de seu impressionante poder, teriam virado monstros, seus egos impossíveis de suportar…”  Pág.295

A partir da construção do mito e elevação a categoria de semi-deus dos pontos (scores) no universo do vinho e a gastronomia (sim, acredite, ele ate deu seus famosos escores para saque , a tradicional bebida japonesa, assim como qualificou alguns restaurantes !),  a colunista do Bloomberg Markets define o que será o produto final : um Parker visto desde todos os ângulos, e exposto “como dizem os japoneses a ser o numero um, o que significa que nele e que o vento bate mais”. Pág.159

Existe um so Parker, ou vários ?

E isso que Elin Mac Coy tenta mostrar nas 323 paginas com seus 9 capitulos.

Existe ainda um pouco daquele advogado disciplinado e metódico, obstinado, dedicado e estudioso, entusiasta e emprendedor, politicamente correto que ajuda as causas nobres, ético defensor dos direitos do consumidor (ele e advogado,ne ? ),  bom pai de família e bom esposo.

Mas como em Dr. Jekill and Mr. Hyde, do Stevenson (e na humanidade toda), existe o “outro lado” onde Bob e arrogante, categórico, teimoso e antiracista (como no caso de fraude da sua colaboradora Hanna Agostini), e intolerante as criticas e aos rivais.

“ Ele não reconhece nem admite suas limitações… E como se um critico de teatro so gostasse de Shakespeare. Ele não deveria confundir suas predileções com objetividade.” ressalta Joe Dressner, importador.  Pág.285

Existe uma multiplicidade de visões, daqueles que idolatram “Le Grand Bob”, e o seguem fielmente no seu website, no The Wine Advocate, dos grupos hedonistas, dos investidores e “negociants” que esperam seus escores para definir preços no mercado atual e de futuros.

Existe um falso paradigma, pois teoricamente Parker quer uniformizar o vinho, mas ele e um grande admirador da França e a sua diversidade (tão abertamente francofilo que recebeu ate a Legião de Honra em junho de 1999 do Jaques Chirac), e por incrível que pareça aprecia Alsace, Cotes du Rhone, Bordeaux e Bourgogne … logo os estilos que todo o novo mundo se esforça em copiar com diversos resultados nem sempre tão satisfatorios.

Afinal, por que ele faz tanto sucesso se era um caipira nacido em Baltimore (1947) que cresceu comendo almondegas de carne e frango frito regadas a copos de leite e Coca Cola ™. ?

O nosso heroi/vilão, tinha muito futuro pela frente: Não conhecia nada do universo do vinho.
So veio conhecer a Franca em 1967, as suas iguarias e o seu vinho da mão da sua generosa mulher Pat, e daí a historia repete-se como no mito do eterno retorno: a Franca esta no centro de todas as discussões.

Vejamos as décadas do 60 e 70 no cenário da American Way of Life.

* O grande publico dos Estados Unidos não tinha grandes conhecimentos sobre vinho.
* O vinho da Califórnia começava a despontar como uma promessa no cenário mundial.
* Não havia um grande nome americano como critico de vinhos (Hugh Johnson e inglês !).
* Agonia da Lei Seca.
* So a classe alta conhecia de vinhos.
* Os importadores precisavam vender vinho e formar os consumidores do resto do mercado.
* Degustação de Paris em 1976, onde os vinhos da Califórnia batem a Bourgogne e Bordeaux.
* Escândalo de Watergate
* Safras mediocres de Bordeaux (72, 73, 74) sendo vendidas a preço de ouro nos USA.
* Escândalo da Família Cuse com vinhos fraudulentamente re-rotulados ( Winegate )
* Viet-Nam
* Lançamento da revista britânica Decanter.

E e nesse panorama que o paladino do vinho viria surgir !

A combinação de charme juvenil, evidente sinceridade, convicta autoconfiança e intensa paixão pelo vinho eram as carateristicas que levariam Parker a publicar o seu primeiro newsletter The Baltimore-Washington Wine Advocate, que hoje encurtou seu nome para “The Wine Advocate”.

Como diria o genio Cazuza… “ so as mães são felizes!” , foi a mae de Robert Parker quem financiou essa empreitada com USD 2000 que ele so conseguiria devolver anos mais tarde.

Depois veio o convite do Washington Post onde ele mesmo via-se apenas como degustador e critico, e não como um jornalista ou escritor.
Engraçado e que Phyllis Richman, editora de alimentação do Post o via como  “Jovem, vivaz e brilhante, com um toque de doçura e equilibrado. Bastante estrutura, pelo que e de se esperar um bom desenvolvimento ao longo dos anos”.  Pág.79.

Mas o ponto álgido do surgimento da estrela do vinho, foi a safra de 1982 de Bordeaux … (não falei que parece o mito do eterno retorno as terras bordalesas?), quando ele fez uma critica positiva declarando-a de qualidade estelar, e os rivais de outras publicações (como o caso de Robert Finigan), não se manifestaram entusiasmados com a récolte… perdendo espaço para Parker.’

Grandes varejistas e importadores começaram a usar as opiniões de Parker para vender os vinhos de essa safra e segundo o negociant Dominique Renard “foi o apogeu de Bordeaux, os americanos estavam mais ativos do que todos os outros mercados… e essas foram as vendas mais fortes de todos os tempos e os preços dispararam”.
Tal vez ai esteja a clave do sucesso de Robert Mc Dowell Parker Jr, as opiniões dele eram “úteis”.

Segundo o sociologo Max Weber **  o êxito econômico e como uma benção de Deus, como premio em vida pelas boas ações e atitudes solidárias.

Irving Copy com a sua Introdução a Lógica diria uns belos silogismos:  Se todos somos filhos de Deus, ergo todos temos direito a ter êxito e sucesso.

Por que Parker haveria de ser diferente ? heheheheh !

Mas hoje ele e refém do seu próprio sucesso, pois “será observado passo a passo e criticado por quaisquer que sejam as posições e ações que ele assuma. E algo que claramente o contraria, embora tenha acabado por tolerar. Afirma nunca ter procurado nem desejado um poder extraordinário. “ e um misto de bênção e de maldição”… Pág. 295.

O mito do eterno retorno a Bordeaux

O eterno retorno é um conceito filosófico formulado por Friedrich Nietzsche. A vida e todos os conflitos que lhe são inerentes, toda sua tragédia, onde dor e prazer muitas vezes se misturam, é, por Nietzsche, considerada extremamente valiosa justamente por tal multiplicidade, que é vista como uma riqueza. Afirmar a existência implica, portanto, em ser capaz de saborear todas as suas nuances.
Nietzsche coloca a seguinte questão: se, por acaso, um demônio aparecesse diante de ti, dizendo-lhe que tudo o que foi por ti vivido será repetido infinitamente, de maneira cíclica, o que você faria? O amaldiçoaria, ou o abençoaria?

Ai e que entram Peynaud, Rolland e Parker… os três demônios… ou anjos ( depende do seu olhar e da sua resposta ! )

O que esta na taca e o que conta !  Parker dixit.

A pessoa que mais importância teve na transformação da França vinícola foi o professor da Universidade de Bordeaux, Emile Peynaud, considerado por muitos o Papa do vinho do século XX.

Foi ele quem “inventou” o estilo  internacional de vinho (especialmente tinto !), com maturidade fenólica, muita fruta, com taninos domesticados e um toque de madeira de primeiro uso, que sendo jovens podem ficar prontos em poucos anos e ainda tem potencial de guarda.

Foi ele quem reclamou da higiene nas adegas e de uma administração cientifica das cantinas e vinhedos.

E foi Emile Peynaud o primeiro “enologo consultor” contratado para resgatar um vinho em dificuldades, ou para “garantir” o seu futuro sucesso. ( Alias, ele no seu momento chegou a assessorar mais de setenta chateaux !)

Ninguém no mundo ousaria criticar Emile Peynaud !!!

E quem foi um dos alunos exemplares de Emile Peynaud ?
Pois e, Michel Rolland !

E foi num dia de julho de 1982 que Robert Parker visitou o laboratório de Michel Rolland em Libourne, encontro de coetaneos, dois jovens em ascensão, cujas reputações e influencia no mundo do vinho ainda estavam na fase inicial…

Não e a toa que foi Emile Peynaud declarou a safra de 1982 como uma safra excepcionel, será que Parker apenas repetiu o que o indiscutível mestre e enologo (coisa que Parker não e !),falou ?

Anyway… se você não ousa criticar Emile Peynaud, e o Michel Rolland sendo um dos melhores alunos… por que você criticaria Parker ?

Diga a verdade, não e uma boa pergunta ??? hahahahah !!!

Degustar dez mil vinhos por ano

Se Clark Kent não tivesse problemas com a Kriptonita, eu diria que era uma tarefa que so ele poderia cumprir. Ou no caso deste artigo… O Super Homem Robert Parker… a final são quase 28 vinhos por dia sem descanso…

Elin Mc Coy não aprova a tirania do paladar de uma pessoa (eu também não !), e não quer ver as tradições e estilos de vinhos que merecem ser mantidos serem descartados simplesmente porque o paladar de alguém não gosta deles.

Preocupa-se com o desaparecimento de vinhos com finesse e sutileza e sabor, com sensação de frescor na boca pela presença de acidez substituídos por vinhos frutados, espessos e opulentos, que são muito melhores numa degustação as cegas do que na mesa de jantar. Considera classificar os vinhos em números uma piada em termos científicos e um engano quando se pensa em função da qualidade e do prazer suscitado pelo vinho, algo que converte o vinho numa competição e não numa experiência”. Pág. 294.

Então, qual seria a grande contribuição do método de pontuação de Robert Parker ?

Em termos de metodologia cientifica, seria a utilização de uma linguagem universal ou sistema, que um consumidor chinês, albanês, americano ou brasileiro entendessem. Estariam usando um único padrão universal.

Em termos de direitos do consumidor, e positivo, assim cada um poderia ter uma base de referencia. Mas o vinho em si mesmo não e numero… vinho e dinâmico, vivo e subjetivo.

Vinho e produto da uva, a terra e a sua circunstancia, parafraseando o filosofo espanhol Ortega y Gasset.

Le coup de pied de l’âne  ( O coice do burro )

Numa pacata rua de Nuits Saint Georges, na sede da Maison Joseph Faiveley, fundada em 1825, atende François Faiveley, quem viria ser o Vingador da Bourgogne!

E era ele mesmo que tinha convidado Robert Parker a almoçar e percorriam juntos a Bourgogne nas maratonas de degustação do american buddy.

Essa amizade e as cinco estrelas a vinícola de Faiveley dadas no livro sobre a Bourgogne não impediram o critico de Monkton de publicar na terceira edição do seu Parker’s Wine Buyer’s Guide publicado em 1993 o seu comentário sobre uma suposta fraude e coroa-lo com um sugestivo Hummm… dando a entender uma malicia por parte da Maison que venderia vinhos de qualidade inferior e menos ricos ao mercado americano do que aqueles servidos em degustações.

O talentoso, amado e poderoso François Faiveley em fevereiro de 1994 viria processar o critico e os seus editores, o editor gerente, e numerosas livrarias em Paris por calunias, ao abrigo de uma clausula do Código Napoleônico ( ahh… Napoleon ! ), argumentando que tinha sido desonrado quando Parker deu a entender que ele fizesse parte de uma suposta fraude.

O mediatico wine guru, para desgosto de inúmeros fãs e para alegria de beaucoup de gent perdeu o caso e no mesmo ano concordou em por fim ao litígio, eliminando as polemicas linhas em futuras edições do livro e cessando de distribui-lo…

Alias, Parker na edição de agosto do The Wine Advocate publicou um comunicado no qual declara não pensar que Faiveley estivesse fraudando seus clientes.

(Pergunta: Será que Parker levou em consideração a-priori como o vinho estava sendo armazenado pelo importador/distribuidor no Texas ? Com um calor de mais de 40 graus no deposito e sem refrigeração ?)

E o valor da indenização por perdas e danos ? Nos USA seria uma cifra astronômica… Faiveley em função de conceitos que hoje seriam considerados por muitas pessoas como démodée tinha pedido apenas um franco !  Sim… HUM franco !

Moral da historia :  Bob Parker, o guru do vinho, Mister P, e  e será sempre polemico !

Ame-o ou deixe-o …  take him or leave him… pois nunca havera outro Wine Emperor !

Mike Taylor – o Fundador do Forum de Eno-Gastronomia

Rio de Janeiro, 23 de Marco de 2006

* Ernst Nagel ( 1934/1983 ).  A Ciência: Natureza e Objetivos
** Max Weber (1864/1920).  A etica protestante e o espirito do capitalismo.